10 de julho de 2017

Meio-dia



Dia desses eu era um menino
Corria, brincava e virava herói
Um instante depois
Me casei numa manhã de sol
A contraluz
E a sombra do nosso beijo
Se projetava sobre um casal de velhos
De mãos dadas no banco da igreja
Nessa mesma manhã nasceram meus filhos
E meus avós fecharam os olhos
Se guardando no silêncio da espera
Numa mesma manhã
Uma festa, um abismo, uma ponte
Sob o mesmo gracioso e impassível raio de sol
Agora é meio-dia
As crianças cresceram
Nossa sombra se foi
Recolheu-se em nós
E o sol já se deita ao poente
Que será dessa tarde?

Tuco Egg - 2017

10 de abril de 2017

Os mais batutas - 2016

No espantoso ano em que multidões foram às ruas contra a corrupção da esquerda dominante mas conformaram-se como cordeirinhos à corrupção neoliberal. No horripilante ano em que armou-se um esquema para estancar a sangria, com Supremo, com tudo. No nauseante ano em que o esquema consubstanciou-se diante dos olhos de todos, sem nenhum rubor. Nesse triste e desanimador ano, ainda deu pra escrever alguma coisinha e publicar nesse espaço ocioso.

Abaixo, the best of 2016.

- Aldeia global

- Ruim de luta mas bom de briga

- O vertice

- Extermínio

- A polarização desancada

- Porque não fui às ruas (esse texto me causou dor de cabeça suficiente para publicar uma resposta, uma espécie de 'panos quentes', aqui)

- Rodrigo Hilbert leu "O Capital"

- Redimido pela beleza


E, apesar de tudo, estamos em 2017, o ano em que esse blog completa uma década.

5 de abril de 2017

No horror do ruído constante

A praça de alimentação de um shopping center já foi a mais perfeita alegoria da ruidosa realidade desse nosso tempo. Mas nós somos hábeis em aperfeiçoar a tragédia.

O assombro de uma praça de alimentação, evidentemente, jamais residiu no alarido barulhoso e constante daquele ambiente hostil. Como de costume, a verdade não se apresenta nas aparências mais vistosas. O assombro esconde-se na visão plantada na mente de Simond e Garfunkel, 50 anos atrás. Dez mil pessoas, talvez mais, reunidas, mas falando sem dizer, ouvindo sem escutar, escrevendo canções que vozes jamais compartilharam. E ninguém ousava perturbar o som do silêncio.

Pois a encarnação vertiginosa da canção encontrou espaço perfeito nos ambientes virtuais e seus dispositivos móveis. Como em um passe de mágica conseguimos, em um mesmo ambiente e instante, ampliar simultaneamente o ruído e o silêncio. A humanidade todinha reunida, falando sem dizer, ouvindo sem escutar.

Há uma gritaria desconcertante no planeta, e é no horror desse ruído constante que habita o mais canceroso silêncio.




The Sound of Silence: letra e tradução

16 de março de 2017

A causa da fome


É impossível, para quem assiste TV, livrar-se da onipresença dos programas de culinária. Tem para todas as idades e gostos, em todos os horários. Dos mais sofisticados aos mais pé-de-chinelo. Dos mais naturebas aos mais gordurosos. Dos mais fitness aos mais fatness. Comida é o tema. Isso enquanto uma criança morre de fome a cada 5 minutos, segundo a ONU. Há um problema estrutural no nosso mundinho com o qual temos convivido pacificamente, em detrimento da morte de milhões - não por violência, não por guerra, não por nada menos que fome, ausência de comida suficiente para manter-se em pé.

“A pobreza é só a moldura, a causa principal da fome é a riqueza – de poucos, a nossa”.

Em Kampala, Uganda, 2017. Foto Tato Egg.

Quando estávamos em Kyebando, um bairro pobre de Kampala, capital de Uganda, visitamos Appoline, uma refugiada congolesa. Perguntamos onde estavam seus filhos, se poderíamos conhecê-los. "Não dá", ela respondeu, "saíram cedo pra rua, procurar comida". Nos disse isso com toda naturalidade do mundo. As crianças não vêem pra casa comer, porque não há o que comer em casa. Saem à luta, um dia após o outro, na esperança de conseguir algo.

Enquanto isso, “vivemos na era da comida. A alimentação nunca ocupou um lugar tão importante na nossa vida; o business da comida nunca produziu tanto dinheiro; nunca houve tanta comida. Nunca houve tanto alimento não comido. Não digo somente pelo desperdício – enorme – das nossas sociedades, em que mais de um terço dos alimentos acaba no lixo; o digo sobretudo por essa nova característica da comida, transformada em espetáculo”.

"Foi em 1980, revela Caparrós, que o FMI e o Banco Mundial, com o Consenso de Washington (que estipulou dez regras para o ajustamento macroeconômico dos países em desenvolvimento que passavam por dificuldades), convenceram os governos africanos, por meio de ameaças com a dívida externa, de reduzir a ingerência estatal em vários setores, partindo da agricultura. Colheitas reduzidas? Carestia? Nada de subvenção. Foi a condenação à morte por fome de milhares de africanos, explica o escritor. Enquanto isso, nos Estados Unidos e na Europa os governos subvencionavam os seus agricultores em cerca de 300 bilhões de dólares ao ano. (...) São esses subsídios que permitem baixar o preço dos grandes produtores e levar à falência os pequenos."

Há um problema estrutural no nosso mundinho, com o qual não deveríamos conviver pacificamente.

------------------
Leia tudo sobre "A fome na era da comida-espetáculo" clicando aqui.
Saiba porque fomos à Uganda clicando aqui.

10 de novembro de 2016

Bruma



Nasce a manhã branca e densa
Densa como um manto pesado e inerte
Que se impõe diante de meus olhos
E sequestra o horizonte
E os montes, e o mato
E me coloca diante do vazio
Num hiato do tempo-espaço
No angustiante nada

Até que por trás de mim
Nessa manhã branca e densa
Surgem os raios amarelos do sol
Me aquecendo as orelhas
E o manto branco e denso brilha intenso
Como emitisse agora sua própria luz 
E mansamente,
De forma muito, muito sutil
Começa uma dança lenta,
Suave, sinuosa, sensual
Com movimentos discretos
Abrindo suas tramas d’água
Revelando transparências
Como voal embalado na brisa
Enquanto desnuda
   [ À pouco ainda velados
   Agora exuberantes ]
Planos, cores, perfis
Distâncias, movimentos...
E vida


Novembro de 2016